Os manguezais do litoral paulista estão no centro de um estudo inédito no Brasil, que pretende mapear a fundo o papel desses ecossistemas na regulação do clima e na qualidade ambiental. Pela primeira vez, um levantamento vai analisar o solo dos manguezais paulistas para medir o estoque de carbono — conhecido como carbono azul — e detectar a presença de elementos tóxicos, como metais pesados.
A iniciativa é da Fundação Florestal , vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) , em parceria com o Centro de Pesquisa em Carbono na Agricultura Tropical (CCARBON) , da Universidade de São Paulo (USP) . O estudo terá duração de dois anos e integra o Programa de Gestão Integrada de Manguezais, que nesta semana completou um ano de atuação.
Equipes da Fundação Florestal vão iniciar no próximo mês a coleta de cerca de 2 mil amostras de solo em diferentes trechos da costa paulista, abrangendo tanto áreas protegidas quanto regiões fora de unidades de conservação. O material será processado em laboratórios da Esalq/USP , em Piracicaba. Os dados vão permitir comparar a qualidade do solo e o potencial de retenção de carbono entre bosques de mangue com diferentes níveis de impacto humano e proteção legal.
“Estimativas mostram que esses ecossistemas podem armazenar até cinco vezes mais carbono do que florestas terrestres, pela grande quantidade de matéria orgânica acumulada em seus solos”, explica Laís Zayas, coordenadora do Programa de Gestão Integrada de Manguezais. “Vamos quantificar isso de forma concreta. Cada bosque difere: alguns sofrem mais influência da maré, outros da ocupação urbana. E isso afeta diretamente a capacidade de retenção de carbono e a saúde do ecossistema.”
Outro ponto central da pesquisa é a avaliação da contaminação do solo. Com base nas amostras, os técnicos vão investigar a presença de metais como chumbo, mercúrio, cobre, arsênio e zinco. A compactação do solo que favorece o sequestro de carbono também pode reter por mais tempo os poluentes que chegam aos manguezais por esgoto, resíduos industriais ou outras fontes.
“Queremos entender se as unidades de conservação ajudam a mitigar a contaminação e como isso se reflete na fauna e na vegetação local. Cruzando os dados, poderemos entender, por exemplo, se os manguezais mais poluídos têm menos caranguejos, menos aves ou vegetação mais fragilizada. Isso orienta diretamente a gestão ambiental e o planejamento territorial”, explica Maria Lanza, gestora da APA Marinha do Litoral Centro.
Mais do que um projeto científico, o estudo consolida um novo olhar para a gestão pública dos manguezais. “Colocamos o manguezal em outro patamar. Estamos tratando esse ecossistema como protagonista nas discussões sobre clima, biodiversidade e sustentabilidade”, destaca Laís. “A conservação dos manguezais não é só importante para a fauna e a flora, mas também representa ações de mitigação climática que o próprio ecossistema já está fazendo por nós.”
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