Segundo Paulo Freire (1996), "Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou construção". Essa frase do educador e filósofo se aplica perfeitamente ao contexto da Inteligência Artificial (IA). Há inúmeras possibilidades para a produção de textos, roteiros, fórmulas e milhares de API's, que constitui um verdadeiro arsenal para que professores possam trazer novas metodologias de trabalho para a sala de aula e reinventar modelos existentes.
Há tempos, educadores criam experiências de aprendizagem que inspiram, engajam e transformam os alunos. Muitas dessas experiências partem de uma boa oralidade e desenvolvimento de conteúdo sem o uso de qualquer tecnologia digital. O bom professor é capaz de transmitir conhecimento e manter uma sala de aula atenta e produtiva. No entanto, a questão que desejo abordar aqui não está relacionada ao comportamento do docente e suas práticas pedagógicas, mas sim ao modo como os alunos utilizam tecnologias dentro e fora da sala de aula. Inovações podem criar um falso sentido de verdade ou construir hipóteses não comprovadas. A IA, como sabemos, responde a qualquer solicitação e, para isso, pode misturar fatos reais e inverdades.
Apresento um exemplo de uso do ChatGPT em que carreguei um PDF sobre ESG. Quando perguntei à IA: "Aja como um professor e explique a teoria da relatividade", a resposta pareceu verdadeira. No entanto, ao solicitar ao ChatGPT que citasse as fontes das informações extraídas, obtive a seguinte resposta: "As informações sobre a Teoria da Relatividade foram extraídas do documento 'TEXTO-ESG.pdf' que você forneceu anteriormente." Porém, no texto em PDF, não há qualquer informação sobre a Teoria da Relatividade, o que reforça a ideia inicial de que a informação gerada pela IA pode criar uma "sensação de verdade" para os alunos.
Andrew Keen, autor do livro "The Cult of the Amateur: How Today's Internet Is Killing Our Culture" (2007), é um crítico da Web 2.0, e para ele, amadores podem produzir textos em blogs, Wikipedia e diversos outros canais sem a preocupação com a veracidade dos fatos. Para Keen, "[...] a democratização, apesar de sua elevada idealização, está solapando a verdade, azedando o discurso cívico e depreciando a expertise, a experiência e o talento". O autor chama isso de a grande sedução.
Desde o lançamento do livro, quase 20 anos se passaram e hoje enfrentamos o efeito colateral da democratização da informação e do conhecimento acessível para 67% da população mundial ou 5,4 bilhões de pessoas. A produção sem precedentes de fake news e a desinformação atingem patamares inimagináveis. Uma pesquisa do Poynter Institute em parceria com o Google aponta que 4 em cada 10 brasileiros afirmam receber fake news diariamente.
A IA é uma máquina propulsora de informações falsas que cria imagens, áudios e vídeos com muita qualidade e rapidez. Um caso recente que ficou conhecido e se espalhou rapidamente pela internet foi a imagem da Torre Eiffel incendiada. O vídeo de extremo realismo foi publicado em janeiro de 2024 no TikTok com a seguinte legenda: "Torre Eiffel pegou fogo e não realizei o sonho de ir lá". Exemplos como esse reforçam a importância do debate nas escolas para que os professores orientem e mostrem aos alunos os impactos negativos da IA e não caiam em armadilhas.
A criação de sentido para a educação e a curadoria de conteúdo
A Taxonomia de Bloom foi formulada em 1956 e seus pressupostos teóricos, conceitos, recursos e teorias foram incorporados ao campo educacional. Um grupo de especialistas, incluindo psicólogos, educadores, especialistas em currículos, testes e avaliação, realizou a revisão da primeira versão de 1956, que originou o livro "A Taxonomy for Learning, Teaching, and Assessing: A Revision of Bloom's Taxonomy of Educational Objectives" (Anderson et al., 2001). As etapas propostas pela nova categorização da Taxonomia de Bloom referem-se à criação, síntese, análise, aplicação, compreensão e memorização. Nos três níveis superiores: criar, sintetizar e analisar, a IA pode desempenhar um papel significativo e cada vez mais próximo da escola e dos professores.
O ChatGPT, Copilot, Gemini e diversas outras plataformas de IA atuam na criação de textos ou análises sobre determinados fatos que podem gerar discussões profundas em sala de aula. A título de exemplo, solicitei à IA que construísse uma nova teoria para o surgimento do universo e ele trouxe a "Sinfonia Cósmica". Nesse exemplo, o professor tem diversos caminhos a percorrer. O primeiro deles é confrontar a "teoria" proposta pela IA com o que a ciência construiu de conhecimento sobre o tema, o que demanda um aprofundamento e um trabalho minucioso de pesquisa. Depois disso, o professor também pode confrontar a "Sinfonia Cósmica" com outras teorias, trazendo conclusões sobre o nível de cientificidade e dando um veredicto em relação ao que foi proposto pela IA. Observa-se que o professor tem um papel central para confrontar a IA com o conhecimento científico. Dentro da Taxonomia de Bloom, criar, sintetizar e analisar pode contar com o suporte da IA enriquecendo as discussões entre alunos e professores.
O papel insubstituível do professor
Ao assumirmos o papel de professor, construímos metodologias para o conhecimento, inventamos caminhos, usamos conhecimentos adquiridos no mercado, desenvolvemos competências e integramos informações disponíveis nos livros, teses, dissertações e modelos já estabelecidos. Toda essa mistura traz aos alunos um percurso único, criativo e gerador de sentido. Utilizamos como suporte os recursos audiovisuais, mapas mentais, trabalhos em grupos e uma infinidade de outros mecanismos. Esse modo de ensinar que gera sentido para o aluno, vai mudar muito pouco nos próximos anos, acredito eu. As IAs não articulam e não constroem o percurso de aprendizagem. São apenas instrumentos que podem facilitar e contribuir no suporte ao professor e alunos.
O real impacto da IA, no meu ponto de vista, está na autonomia cada vez maior do aluno na busca por conhecimento e na construção de sentido.
O real impacto da IA, no meu ponto de vista, está na autonomia cada vez maior do aluno na busca por conhecimento e na construção de sentido. Antes, o acesso a respostas estava vinculado aos vídeos na internet, livros, textos espalhados na web e no material didático da escola. Hoje, no entanto, a mesma informação é encontrada, além desses repositórios, também nos chats como GPT, Gemini, Copilot e tantos outros que não apenas explicam, mas também formulam ideias – falsas ou verdadeiras. A IA vai fazer o que for solicitado, mesmo que para isso ela invente uma história ou um fato qualquer. Pode incluir aspas de pesquisadores e fontes que simplesmente não existem.
Para o professor e consultor Paulo de Tarso Barros, o novo docente tem que se tornar o arquiteto da aprendizagem e não o pedreiro. O trabalho mais bruto e operacional pode ser desenvolvido pela IA. Já o arquiteto é capaz de conectar os pontos e gerar sentido. Ainda segundo o professor, o docente está se tornando um designer. O letramento digital vai perdendo espaço, uma vez que as novas gerações já nascem inseridas no ambiente digital. A geração Alpha, pessoas nascidas após 2010, são nativos digitais e não precisam de um conhecimento digital prévio. Por outro lado, gerações como a X, nascidos entre 1965 e 1981, e Millenials, nascidos entre 1983 e 2000, precisam entender esse novo contexto tecnológico antes de aprenderem a utilizar as novas ferramentas. Isso vale tanto para alunos como para professores.
A IA, por fim, é um novo desafio para alunos e para a escola, mas o papel do professor se torna cada vez mais relevante em um cenário no qual o conhecimento e o aprendizado continuo se torna ainda mais essencial.
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