opinião

Crônica: Sombra e canto de passarinho

terça-feira, 30 de março de 2010

Ainda não brotou o sol na copa da mangueira. Os passarinhos ligaram suas flautas em alvorada para acordarem o domingo. Enquanto tudo parece ainda sonolento, tem aqueles que animados pela noite, sons estridentes dos seus veículos, retornam dos bailes mecânicos.

Só de ouvir os passarinhos e como tem pássaros na cidade, eu me desperto por completo, em deslumbramento. Quem sabe são atraídos pela comida farta jogada fora, caídas nas ruas e perto de mercados? A musicalidade expressada por vários deles, de ouvido em prumo, dá para se compor uma sinfonia incrivelmente bela.

Ainda mais eles virão se em cada quintal se deixar uma árvore frutífera. A mangueira, além de boa sombra, bons frutos, na safra ou fora dela atrai os periquitos e muitos outros passarinhos cantadores. O mamão de fino cheiro puxa para suas copas até cauteloso tucano.  Fora os bem-te-vis, joão-de-barro e sabiás.

Quando se planta árvore na cidade ela se humaniza ainda mais. Ela se aproxima de uma amostra completa do universo. Porque o homem tem necessidade de estar um junto do outro. E por mais artificial que seja uma cidade a gente gosta de estar dentro de um paraíso. Quem é que não sonha com um sossego. Viver no meio de frutas, sombras e passarinhos?

E este despertar lento da madrugada, ao se abrir os olhos, ainda torporoso, ter-se a impressão de sonho. Sonho de campos floridos, de revoadas, de garças brancas, campos trigueiros, de girassóis, de uma roça de arroz cacheada. Sonho romântico de se ver ao longe, o príncipe (ou princesa) encantado, vindo de braços abertos ao seu encontro, enquanto os periquitos assanham os seus alaridos. Depois de tudo a decepcionante realidade de rochas quentes.

A cidade, ainda mais uma cidade amazônica, não se justifica ser despetalada por completo. Uma cidade tropical, quente e úmida, solta na lisura do asfalto, quando nem aragem se esvai do chão. Assim sendo, cada vez mais, torna-se uma cidade incompreensível e injustificada, que por si só, reduzirá o bem-estar dos vivos e que pode se tornar, só por isto, uma cidade agressiva e violenta.

A cidade plantada de verde colossal, florida com suas flores de floresta, com suas águas nascidas e perenes, com seus riachos, buracões, grotas vestidas de natureza tornar-se-á um verdadeiro paraíso encantado. Nem precisaria trazer de volta aos nossos dias os paisagistas renomados. Tem-se as mãos cheias por aqui também. Basta visitar mateiros com Raimundo do Mutirão. Ou Bernardo lá de Costa Marques. Que sem cerimônias implantarão modelos de bosques, enfileirados de árvores coloridas e dezenas ingazeiros nas beiradas dos igarapés.

O sol de ouro cobriu a mangueira. E tudo ficou bem claro agora. Ainda não ouvi nenhum ronco de automóvel. Os bichos de Ariquemes, mesmo domingo, espalharam-se na cidade. Os raios retinem nos telhados pintados como se fossem espelhos. Refletem-se em vários sentidos, cegam-me transitoriamente, nem posso olhar para não exagerar a minha percepção no seu limite extremo.

Como se sabe, ainda mais agora, nada se deve fazer paisagismo sem um projeto técnico. Antes, quando menino, não era assim, o próprio povo plantava árvore no quintal. Em todos os quintais havia mangueiras. Jaqueiras. Bananeiras. Goiabeiras. Fruta-pão. Jabuticabeira. Jambo. Os quintais eram verdadeiros parques de diversões. Crianças subindo nos troncos.  Balanços atados aos galhos. Poleiros de galinhas.

No asfalto ao meio dia a temperatura pode chegar a 45 graus Celsius. E este calor entra nas casas. Desassossega a criançada. Recém- nascido irrita-se num choro inexplicável. Idoso desidrata. Jovens não conseguem estudar. Aumenta a conta de luz. Ainda há mais a luz e calor dentro de casa. O fogão, o barulho do liquidificador, o ventilador, a TV ligado no máximo volume. A casa torna-se um lugar de brigas e extremamente irritante. Agonizante.

Sentar-se à porta da rua, à sombra da árvore, fim de tarde. Conversa alegre de vizinhança. As crianças correm e brincam ao alcance do olhar. É um momento inconfessável de grandeza comunitária. A família se acalma inteira. E a cidade passa a ser de humanos. Não de ETs. Não de lobisomens fantásticos. Quem não se atinar a estes detalhes jamais poderá conhecer as reações do seu povo. A carga de tensões, de estresse injustificado, de brigas, de adoecimentos, com certeza, em grande parte, deve-se ao desmantelo e descuido com princípios da humanizada convivência.

Crônica: Confúcio Moura.

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