opinião

Crônica: O seu teto é o céu estrelado

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Hoje, vou contar pra vocês, a história do “homem do Rey do Peixe”.  Cada vez que viajo à Porto Velho, quando atravesso a ponte do Rio Preto, fico logo apreensivo para saber se ele ainda está ali.  Vou andando atento, bem perto da Colônia de Pescadores, colado ao acostamento da BR-364 vive um homem, que se apossou de um pedaço de terra mínimo, talvez do tamanho de uma sepultura. Não sei se ele é homem, quase-homem, um bicho do mato ou quem sabe pensa que não é nada, ou pode ser o próprio vento.

Um varote fincado no chão, uma quase bandeira de saco plástico, é o seu ponto de referência no mundo. Quem sabe pra ele é o número da sua moradia, que não existe. Este é o homem especial que encara o universo de frente, sem proteção, quem sabe querendo regredir ou avançar aos tempos do homem primitivo! Quem sabe querendo ser super-homem. Estar ao relento absoluto assusta. Ele se ajeitou ali, como uma ave faz o ninho, no acostamento ao meio do capinzal. O socado no chão pelo pisoteio natural, ao relento de sol, chuva e vento, sobre tarimba mínima, lona clara por cima, sem armação nenhuma. E o tempo vai passando, quase um ano que vive ali, recebendo o esturro de carretas, caminhões, ônibus.

Este é o super-homem que não quis o abrigo de uma casa. Nem sombra de uma fruteira. Nem pedra. Nem barranco.  Preferiu ter o céu absoluto como teto, quem sabe orgulhoso, cansou dos limites das janelas e portas e optou para ter gananciosamente a amplitude da sua visão sem limite. O céu estrelado na noite. O sol na plenitude de dia.

Basta a gente olhar a natureza para se aprender. Também olhar o homem com seu multicolorido jeito de ser. Porque o homem, a sua cabeça, o jeito particular de cada um, terminar por ser, o homem é uma aula. Nunca se aprende tudo dele. O homem é um animal incompreensível. Quem me dera dormir sob um céu estrelado!

O mais incrível de tudo é o pensamento, que rola uma fita que não tem fim, o pensamento escorrega do seu jeito, o cérebro vai pensando até mesmo quando não se quer pensar em nada. Através dele, o homem ajeita-se nas suas convenções e vai classificando cada um de nós entre o mediano à loucura extrema.

Basta olhar no entorno de nós mesmos, para se ver nas cidades homens, mulheres e crianças vivendo nas ruas. São os mendigos. Os pés-inchados. Os drogados. Os miseráveis. Se mergulharmos nos seus mundos, quase vazios de posses, veremos um leque de motivos que oscilam da pobreza absoluta aos vícios mais dominadores. Quem sabe todos não tenham se cansando de esperar a felicidade? Como a felicidade demora muito, eles tem pressa e seguem em busca dela pelos mais absurdos caminhos. Vão-se os andarilhos pelas estradas em busca da terra e de ilusões. Cansados de tantos outonos de enorme aridez, vão-se todos em busca de primaveras floridas. Vão-se os retirantes, cortados ao meio, querendo ir e querendo ficar. Mas, vão-se todos despedaçados. Nós todos que fomos adestrados ficamos aqui. Os amansados ficaram aqui. Em nossos mundos sem estrelas só nossas e ficamos aqui previsivelmente assalariados.

Kafka descreveu o homem que virou barata, uma verdadeira metamorfose. O homem do “Rey do Peixe” não é mais homem, ao menos este homem convencional, de cabeça, tronco e membros. Este outro homem diferente  que tem malas, quartos, cozinhas, que se preocupa com o supermercado, com educação dos filhos. O homem do “Rey do Peixe” não tem nada. A tenda mínima, os mosquitos como amigos, o verde piso do capim, o sol ardente do meio dia, a frota de todos os veículos que passam, o barulho dos motores que não se lhe assusta, o lago do Jamari que empresta a água. E os grãos de soja caídos na estrada que ele cata um a um criteriosamente.

Não tem fogão. Não toma café.  De quando em vez alguém lhe joga um pacote de bolacha, nem para com medo do homem metamorfoseado, quem sabe homem e cobra, homem e tatu, homem e lagarto. A vizinhança aprendeu a conviver com ele, a distância de mil metros, a respeitar a sua preferência, que não incomoda a ninguém. Ele tira da beira da estrada o de que necessita, nada plantado convencionalmente, o mínimo do mínimo para continuar a viver.

Ele carrega no próprio corpo tudo que lhe pertence, incluindo o próprio corpo. Se morrer ali não dará trabalho nenhum à justiça na hora de fazer o seu inventário. Porque o que ele tem ele levará consigo mesmo para o reencontro com a terra mãe. Caso queira mudar de moradia, basta levantar e sair andando que o seu patrimônio o acompanhará sem grandes arrumações.

Infelizmente não posso descrever toda a rotina do “homem do Rey do Peixe”. Porque nunca parei ali para conversar com ele. Creio que por medo de algo que me parece pavoroso. Creio que por indiferença ao lagarto da beira da estrada. Talvez pela maneira agressiva que conduz a sua própria vida. Uma agressividade que foge a este mundo limitado de nossas visões.

“Não há servo e mendigo maior que eu, não me tema, portanto, pois, o pior que posso fazer é servir ou pedir”.

Crônica: Confúcio Moura

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