Futebol

Atletas do Rolim de Moura denunciam maus tratos, e presidente deixa cargo

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A trajetória do Rolim de Moura no Campeonato Rondoniense nunca foi de expressão. Sem títulos ou grandes conquistas, o clube fundado em 2002 seguiu por 14 anos disputando ora a Primeira, ora Segunda Divisão com muita força de vontade e torcida animada, mas sem fôlego para chegar às finais. No entanto, ainda no primeiro turno do estadual deste ano, o Tigre da Zona da Mata encara uma crise fora das quatro linhas que resultou na troca de presidente e pode ser responsável por tirar de vez o clube das competições.

Um grupo de jogadores acusa o técnico Manuel Filho de maus tratos. Entre as denúncias estão alimentação inadequada, péssimas condições dos alojamentos e apropriação indébita do valor cobrado pela profissionalização dos atletas.

O treinador, também responsável pela administração do clube, nega as acusações e afirma que tudo não passa de mal entendido entre jogadores que não estão sendo utilizados no campeonato. Ex-presidente e um dos fundadores do clube, Arthur Lima diz que os trabalhos não estavam acontecendo como combinado, por isso renunciou ao cargo no início da semana. Juarez José da Silva, o Jabá, é o novo presidente.

Jorge Costa, de 25 anos, um dos atletas que fizeram a denúncia, afirma que o elenco do Rolim de Moura é formado por cerca de 40 jogadores, mas apenas 28 são utilizados pelo técnico. Os demais são obrigados a treinar separadamente. Não necessariamente, segundo ele, por questões técnicas.

– Ele cobrou de R$ 1,5 mil a R$ 2 mil desses jogadores (que treinam separadamente), dizendo que era para a profissionalização, mas até agora a maior parte deles não está regularizado, e ele não devolve o dinheiro para irmos embora. Outra coisa errada é que ninguém aqui recebe salário. Todos estavam cientes disso quando vieram para cá, só que o técnico quer que todos assinem um documento dizendo que estamos recebendo mesmo sem recebermos nada – acusa.

O jogador afirma ainda que os afastados são obrigados a se alimentar depois que os demais jogadores já comeram. A denúncia continua com as precárias condições do alojamento.

– Todo dia nós só comemos depois das 13h, e muitas vezes o prato tem apenas arroz, feijão e salsicha. Quando o Rolim foi jogar em Guajará, ele (Manuel Filho) nos deixou dois dias sem comida. Nossa salvação foi um vizinho que nos arrumou o que comer. Aqui falta água direto, e os banheiros estão sujos e quebrados. Somos obrigados a ficar amontoados dentro desses alojamentos. Alguns acabam tendo que dormir no chão, por falta de colchões.

Alojamento dos jogadores do Rolim de Moura (Foto: Rogério Aderbal)Alojamento dos jogadores do Rolim de Moura (Foto: Rogério Aderbal)

Outro atleta, que não quis se identificar, diz que o grupo que está treinando separado dos demais não pode mais entrar no estádio para acompanhar o time.

– Ele disse que não fazemos mais parte do elenco, então se quisermos assistir aos jogos teremos que comprar ingresso. Mas como vamos comprar se não recebemos nada? E o dinheiro que tínhamos ele pegou e não devolveu. Ele não resolveu nossa situação. Nesse grupo tem pais de família que estão aqui desde novembro, e o Manuel não resolve a situação deles. Por isso estamos juntando mais provas para poder denunciá-lo, porque esperamos que ele responda por isso.

Ainda de acordo com este jogador, na última semana um companheiro do grupo dos afastados fraturou a perna durante o treino e foi abandonado pela comissão técnica.

– Ele está no alojamento esperando uma vaga para fazer uma cirurgia em Cacoal (município do estado de Rondônia), mas a única ajuda que recebeu até agora foi de um amigo, que comprou alguns medicamentos para ele – desabafa.

Treino do Rolim de Moura (Foto: Rogério Aderbal)Jogadores que não treinam com o Rolim afirmam que foram impedidos de entrar no estádio (Foto: Rogério Aderbal)

 

 

 

O OUTRO LADO

Acusado, o técnico Manuel Filho declarou que as denúncias são infundadas. Além disso, ele garante que a situação de todos os jogadores deve ser resolvida nas próximas semanas.

– Esses que estão reclamando são atletas que não estão sendo aproveitados por não terem uma posição apurada, por isso estão insatisfeitos. Mas a partir dessa semana a situação deles deve ser regularizada junto à CBF, e com isso poderão voltar para seus estados de origem – justifica o treinador.

Quando perguntado de onde os atletas irão conseguir recursos para viajar, tendo em vista que não recebem salários no clube, Manuel Filho disse que todos ganharam passagens até Porto Velho, mas não soube explicar como irão deixar o estado. Em relação às condições da alimentação e alojamentos, ele confirmou que os 28 jogadores do grupo principal realmente se alimentam primeiro, mas negou que a comida seja de péssima qualidade.

– Eles se alimentam primeiro porque precisam descansar para treinar mais tarde, porém todos comem a mesma comida e dormem nos mesmos alojamentos. Se tivesse alguma irregularidade, os outros também iriam reclamar das condições – diz ele, sem fazer referência à separação do elenco.

Técnico do Rolim de Moura, Manuel Filho (Foto: Rogério Aderbal)Técnico do Rolim de Moura, Manuel Filho (Foto: Rogério Aderbal)

 

 

 

TROCA DE PRESIDENTES

Já o ex-presidente do Rolim de Moura Arthur Lima, um dos fundadores do clube, informou que não acompanhava a rotina do time, pois a responsabilidade pela administração é da empresa comandada pela família do técnico Manuel Filho. Ele diz, no entanto, que não estava satisfeito com essa administração, uma vez que ela não estaria realizando o que foi combinado. Para resolver o problema, pensou em pedir à federação a desfiliação do clube em meio ao estadual, mas optou por deixar o cargo, junto com toda a diretoria.

– Arrendamos o clube para eles disputarem o estadual, mas o Manuel e a empresa dele têm desrespeitado várias cláusulas do contrato. Trouxeram um monte de jogadores de outros estados e os deixaram largados na república, sem salários e sem comida. Por isso pensei em abandonar o campeonato, porque desse jeito não tem como disputar nada, mas optei por sair da presidência – diz Athur, reforçando as denúncias dos jogadores afastados.

Pensei em abandonar o campeonato, porque desse jeito não tem como disputar nada, mas optei por sair da presidência
Ex-presidente do Rolim, Arthur Lima

Um dia após a saída de Arthur, um novo presidente foi apresentado ao clube, Juarez José da Silva, de 55 anos. Conhecido na cidade como Jabá, ele anunciou que uma nova diretoria foi criada para gerir a equipe durante a temporada.

– Grande parte dos membros da nova diretoria é formada por empresários, pois queremos chegar às fases finais do estadual, e para isso precisamos de apoio do comércio local.

Sobre a situação dos jogadores que denunciam o técnico Manuel Filho por maus tratos, ele disse que no momento sua prioridade é com os 28 jogadores que estão regularizados, os demais estão a cargo do treinador, que foi afastado das funções devido a um problema de saúde no pé.

– Estou alugando uma casa para abrigar os que estão regularizados, e os demais eu não sei como vão ficar. A responsabilidade por eles é do Manuel – afirma o novo mandatário.

PROBLEMA ANTIGO

Treino do Rolim de Moura (Foto: Rogério Aderbal)Treino do Rolim de Moura (Foto: Rogério Aderbal)

Os problemas internos no Rolim de Moura não são recentes. No fim de 2014 o presidente Arthur Lima abriu novas eleições, afirmando que não queria mais estar à frente de clube algum no estado. No entanto, ninguém estava disposto a substituí-lo. Na eleição só compareceram o próprio Arthur e um repórter que iria cobrir o pleito. Com isso, em 2015 o Rolim de Moura paralisou suas atividades no profissional por falta de interessados para comandar o clube.

Depois de um ano afastado, Arthur Lima reassumiu o comando do clube e fechou uma parceria com uma empresa de futebol do Rio de Janeiro, comandada pela família do técnico Manuel Filho, que ficou com a responsabilidade de investir e tocar o Tigre da Zona da Mata durante a temporada.

 

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