Em todo lugar há figuras folclóricas.Aquelas pessoas que carregam em si mesmas marcas de alegrias ou manias.No Jaru teve o Saravá que de tão polêmico, só se o ouvia se não desse tempo de escapar antes.Era portador do TOC – transtorno.
Em todo lugar há figuras folclóricas. Aquelas pessoas que carregam em si mesmas marcas de alegrias ou manias. No Jaru teve o Saravá que de tão polêmico, só se o ouvia se não desse tempo de escapar antes. Era portador do TOC – transtorno obsessivo compulsivo. Com o TOC o cara tem idéia fixa, preocupação continua. Ele tinha mania de perseguir falhas na saúde pública.
Do outro lado tem o VICENTÃO. Um boa praça. Sempre de bem com a vida. Nunca reclama da sua vida dura. Uma memória prodigiosa do alto dos seus 73 anos de vida. Tem também a sua mania, que é a de entrar na roda de conversa e daí a pouca rouba a cena só pra ele. Sempre tem novidade pra contar. O TOC dele é a política. É MDB desde Ulisses. Sua cabeça é um dicionário de datas e nomes.
Vicente Souza Ramos é maranhense. Barbeiro de profissão. A mania de contar “causos” veio da necessidade de ganhar clientela e segurar o sujeito na cadeira enquanto tilintava a tesoura e manejava a navalha. Enquanto não concluísse a história não dava por fim a sua tarefa. Ao fim o freguês ganhava uma mão de talco e Água Velva. Do seu salão o freguês saia rindo e cheiroso.
Saravá já morreu. Ainda é lembrado no Jaru. Quem quiser ganhar fama espere pela morte. Saravá ficou famoso pela sua incomparável chatice. Talvez esteja no GWR – Guinness World Records. Sem dúvida nenhuma, se um dia chegasse à Presidência da República o nomearia (in memorian) para o Ministério da Saúde.
Vou deixar Saravá em paz. Encontrei-me com Vicentão dia 5 passado na Câmara de Vereadores do Jaru. Não tardou ele começou mais um caso, como se verdadeiro fosse. Tudo aconteceu na sua viagem de férias a São Paulo. Ele que vive sereno e calmo em sua casa, um silêncio apavorante noites inteiras, um latido de vez em quando, o Rio Jaru apenas sussura na cheia. A BR 364 fica longe. Enquanto as carretas de soja passam destrambelhadas nos quebra-molas. Soja e usinas deixaram a BR um inferno. Preço que se paga pelo progresso.
Em São Paulo não conseguiu ter paz. A cidade não dorme. Pelo atordoado não se sabe se é dia ou noite. Veio uma insônia apavorante. Ele aproveitou o tempo para elucidar alguns enigmas que o perseguia a tempo. Os “olhos” imensos nas asas de algumas borboletas da Amazônia, a importância da pena do pato, a estreita relação da melancia com a geografia da Terra, os mistérios do bico do tucano. Enfim, depois de semana sem dormir conseguiu se satisfazer com os esclarecimentos das noites em claro.
O PATO vive no lago, mergulha, sai fora e farfalha a asa e água desaparece. Está enxuto em folha. Suas penas são impermeáveis por natureza. Enquanto a galinha quando molha fica toda embolada por horas a fio. Foi assim, por esta propriedade rara que a pena do pato serviu à Princesa Isabel para assinar a Lei Áurea. Não havia a caneta Big e nem a Parker naquele tempo. Era na base da pena de pato e tinteiro. O que deu a ele a preciosidade rara de entrar na história. E a infelicidade de viver quase pelado pela força da preciosidade de suas penas.


