Cultura

CRÔNICA – A vida por si só se justifica

segunda-feira, 22 de março de 2010

Basta olhar a história para se ver que a nossa vida é um simples estalo de dedos. Há cem anos Nilo Peçanha governava o Brasil, logo a seguir foi à vez de Hermes da Fonseca. E o homem aventureiro travava a maior luta para construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Meu avô Francisco Moura viveu aquele momento. Minha tia Izaura era menina de colo. Depois cresceu, envelheceu e morreu.

Nada é para sempre. Ainda mais a vida. Que é curta. O que se pode deixar ou não deixar é uma questão de ponto de vista. Mas, todo mundo deixa alguma coisa, se não dinheiro e fama, ao menos o sangue pode ficar para o testemunho do que se foi. O filho ou o neto é pedaço de sua própria vida. E é por isso que digo, para mim mesmo, quem tem filho não morre nunca. Porque a genética passa, quando filho anda, um pedaço da sua geração também anda.

Dias atrás vi uma reportagem sobre os índios do Xingu. Quando um filho nasce são plantados cinqüenta pés de pequizeiro pra ele. Por isto que estes índios são importantes para nos dar lições – a de manejar a floresta para as futuras gerações. Cada filho recebe apenas cinqüenta pés de pequis de herança dos seus ancestrais.

Eu tenho lido sobre a história das civilizações. E vejo que o poder político é pequeno e transitório, mas que se deve trabalhar muito para deixar algo imorredouro, como os pequizeiros dos cerrados. O Império Romano foi importante. Conquistou Europa, Ásia e África. Cada imperador, por mais que tivesse poder, foi tudo muito rápido, em torno de vinte anos para cada um deles. O homem passa e fica a obra. De repente pode-se ter a impressão de estar criando algo novo, engano, quase tudo já foi pensado e experimentado no passado.

É extraordinário nascer. Nem sabe você quanto se tem que agradecer. Raríssimo a nossa vida. Um acaso do acaso. Milhões de espermatozóides viajando no corpo da mãe, por dentro, subindo, milhões de verdades subindo e descendo. Apenas um deles, um só, consegue chegar ao alvo. Penetra no óvulo e dá motivo para você nascer e viver. E os outros, milhões deles, que poderiam também, se fosse o caso, gerar outro ser, não conseguem e são descartados simplesmente.

A vida também é descartada. A natureza faz isto sem a menor piedade. A natureza pode fazer, mas, você não. Você e eu temos que simplesmente viver. Admirar a vida. Agradecer por este momento. E olhar tudo em volta e dizer – “como a vida é maravilhosa”. E depois ralar na dureza do seu próprio dia. Ralar para sobreviver.

Não se pode banalizar a vida. Porque ela é um bem precioso. A vida é bela e rara e extraordinária. Quando vejo um camarada encher a cara de cachaça, correr em alta velocidade e sem capacete, brigar por qualquer motivo, sacar revólver e atirar no outro, quando vejo jovem usar crack, maconha, cigarro, cocaína e se desfazer completamente, puxa vida, fico triste pra chuchu.

Há cem anos Nilo Peçanha governou o Brasil. Depois veio Hermes da Fonseca. Ninguém se lembra deles. E faz pouco tempo. Só cem anos. E você mesmo, aí, não se lembra de Nilo e nem de Hermes. Talvez nem tenha ouvido falar. Talvez de Rui Barbosa. Rui perdeu a eleição para Hermes da Fonseca. O povo chorou copiosamente. Não adiantou nada. Hermes foi o Presidente. Não existe quase ganhou.

Há cem anos o Brasil se arrastava lento pela consolidação do princípio republicano. Quem mandava no país era o café com leite. Minas Gerais e São Paulo. Quando não era um que estava na Presidência, ano seguinte viria a sua vez.

Os reis governam e passam. Os imperadores romanos passaram em filas pela nossa história. Os gregos filosofaram profundamente. Encheram prateleiras de livros. Sendo que até hoje a Grécia ainda não se entende. Ela que foi nobre berço de um esplendor, não passa hoje de país problemático, aturdido por crise econômica que ameaça a relação do bloco continental do euro.

Tudo é passageiro. Só a vida interessa. Não basta a fama, nem a riqueza, nem o poder. O que é muito, por natureza, é a glória de viver. A vida com liberdade. Então, meu caro e dileto irmão, vamos viver a nossa vida com o maior bem possível e deixe para os seus filhos ao menos cinquenta pés de pequizeiros. O que já é muito.

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