Por Confúcio Moura – Prefeito de Ariquemes
Ninguém gosta de cobrador de imposto. Nem de fariseu. Nem Jesus Cristo admitiu o mercador no templo. E abominou Levi. O que eu faço, diante de toda esta força dos tempos, para arrumar dinheiro para espantar o João Buracão do meu terreiro? E o vento soprou no mundo, evém mudança de tempo em tempo. Escrevi evém porque eu quis. E você aí professor de língua portuguesa não me encha o saco. Eu quero a paz das crianças dormindo.
Estou falando de fariseu e de Levi, não é do Capitão Livi, o nosso, mas, o outro, o convertido cobrador de imposto. O malfazejo. E eu estou aqui, apertando a Zanza (a moça da receita). O Gilvan também. Eu quero mais. Quem quer dinheiro? Eu quero porque preciso. O João Buracão entrou na minha vida. Um horror. Ainda bem que não posso e não devo tapar todos os buracos da cidade. Seria um caos. A perda da referencia. Com o quê poderia mais tarde me comparar? Tudo tem que ter um ponto de referência, a física o exige. A velocidade, o tempo e o espaço.
Pois é, dei um número mágico para a Zanza – R$ 1,5 milhões por mês. Deu um estalo na cabeça e criei este número. É o meu número imaginado, o meu foco, de atingir a receita mensal e própria de 1,5 milhões. É possível. E o Gilvan fala que é difícil e eu rebato que não. Sou fariseu assumido, mesmo que me custe a alma. Um Levi mais ou menos, ainda não sei se vou me converter aos mansos de espírito. Sei lá. O IPTU e ISS, a taxa do lixo, o imposto do poste, do fio do telefone, o imposto da puta que te pariu, o imposto da alma, o outro de se respirar, de espaço aéreo, de se cuspir no chão, até o limite máximo, o ISS do orgasmo.
Mas, é verdade, cara! Não quero o João Buracão na minha vida. Assisti ontem que o dito cujo estava de plantão no muro do presídio. A fossa estourou. A TV foi lá e registrou. Uma fedentina do diabo. Até deu turista por lá. O outro botou o João Buracão “na bituca” à porta do seu comércio, no Setor 3. Deu IBOPE, o cara vendendo pra cachorro. Ainda mais com um marketing deste. Melhor ainda de graça. O presídio não é meu. Nem a fossa. Nem a bosta do preso. Se não for do Lula é do Governador. Minha é que ela não é. Agora, vai entender a cabeça do povo, pra que ele faça o julgamento certo, da competência constitucional do preso?
E aí eu vou adiante sobre o ISS, que é só briga e ninguém quer pagar. Porque fariseu é uma desgraça. E sempre foi. O Levi da Bíblia Sagrada também. Mais tarde ele se converteu num homem de Deus. Cobrador de imposto não é de Deus.
Está vendo aí Gilvan, bem sabe você que é adventista, por isso se acautela tanto, para não perder sua alma em vida e morte. E tocando pra frente o que mais posso cobrar de ISS na cidade?
Cobrar do banco, do leasing do carro, do cartão de crédito, do transporte do boi, dos profissionais liberais, dos camelôs, do vendedor de pipoca, vai mais longe, como falei, só me falta agora, cobrar o imposto da orgia. Tem um fiscal aí na Prefeitura, o chamado “boca do inferno” que bem poderia ser o cobrador do ISS de todo cassino sexual da cidade.
Se o cara transar, é conseqüentemente serviço, o “boca do inferno” entra em cena. Acabou o ato, lança o talão retendo 5% da estimativa de receita. Se tiver orgasmo é mais caro, tarifa sobe para 10%. Até o beijo, o simples “ficar” pagará taxa de 3%, da mesma forma dizer “meu amor” também o “boca” mete imposto. Deus me livre. E cadê a paz de crianças dormindo? E cadê a “cidade feliz”. Daí a pouco ninguém mais diz “meu amor”, ninguém beija na boca e nem “fica”. Com o orgasmo caro, lá nas nuvens, ninguém mais transará na cidade. E Ariquemes será infeliz. Tudo por causo do “boca do inferno”.
O “boca” não para por aí. Ele será o mais ressuscitado fariseu, que migrará de tempos imemoriais de Israel para a nossa doce Ariquemes. Como ele por perto não será mais doce como quero deixar a cidade. Será uma cidade soturna como se fosse um convento ou seminário. Quem sabe um monastério. Lá vem o ISS do motel, dos “pontos gays” do 515 e Trevo. Da Rua do Rebojo. Ele, o tal e qual, está com o pensamento a mil, namorado no carro, na moita, ele vai turbinar a Infovia Ariquemes, gravar tudo e jogar automaticamente no sistema tributário. Quando for pagar o IPVA está lá, quentinho o ISS do prazer. Vai dar um rebu do diabo o boleto do imposto do carro junto com o do prazer.
Será o fim dos tempos. Deixando de lado a brincadeira – eu estou precisando de dinheiro. O “boca do inferno” está aí. O João Buracão também. Da minha parte vou dar isenção completa do imposto do prazer. Só tenho que ouvir a Câmara. Que eu preciso – claro que preciso. Até mesmo de voltar aos meus tempos de rapaz.


