Enquanto se brinca o tempo passa. E passa velozmente. Eu venho do tempo que nós mesmos fazíamos os brinquedos. Eu era expert para construir alçapões e arapucas. Um mestre. Sabia fazer berimbau. Finca e peão. Balanços de cordas atadas a galhos. Gangorras de pau roliço. Espadas de madeiras. Bola de pano ou bexiga de boi. Estilingues. Carrinhos de buritis puxados a bois (falanges). Bola de gude era a preferida. As pipas (arraias) a sumir de vista no céu azul. No mais, além dos brinquedos eram as estripulias. A gente aprontava cada uma de matar pai e mãe do coração.
Como se vê hoje, menino não gosta da aula como ela é. Porque tem na rua muita motivação pra ficar ali. E não ir pra aula que é careta. Se a aula mudasse o seu jeito de ser, o menino iria pra escola com maior satisfação. Eu creio que se deve mudar o jeito de dar aula para as crianças. Dar aula brincando. Aula feliz. Veja uma criança com um celular, sabe tudo, aprende rápido, dá show com qualquer geringonça eletrônica.
Certo dia Nobel meu irmão catou alguns cartuchos de pólvora da minha avó, fomos pra a praça meter medo nos casais distraídos. Era pólvora no chão e fogo. Certo momento, ele despejou um cartucho inteiro no chão e riscou o fósforo. Foi uma explosão e tanta. Um avanço de fogo, feito saia vermelha rodada e sapecou os que estavam em volta. Ele saiu todo despelado, sem cabelo, rancou o coro da cara, até os beiços, assou o nariz por dentro e queimou a roupa. Ficou pretinho feito um satã. Saiu em choro, não queria dizer a verdade e foi parar na palha de bananeira.
Nem tanta arte assim se pode aceitar. No entanto deixar a meninada à vontade, rolar no chão, sujar a roupa, fazer casinha de barro, lameiro pra construção de brinquedos, ter contato com a terra, correr descalço, subir em pé de manga, escorregar pelo galho, porque criança gosta de natureza, gosta de barro, gosta de árvore, gosta de aventura. Tem uma criação sem limites.
Foi Alice que me contou este malfeito, tempo de marcação do gado na fazenda, idos anos cinqüenta, Minas Gerais, Indaiá, Distrito de Passos. E o pessoal esquentando o ferro de marcar a rês e Biluca, Pipi e Zeca combinaram também para marcar eles próprios. Foram para um galpão ao lado, aqueceram a marca ao vermelho. E avisaram, quando eu marcar, vocês berram, pulam e peidam. Tudo certo? Certo. Sorteio caiu o Biluca. Ficou de quatro e lá vem o ferro em brasa. Aplicado no lombo direito, Biluca saiu que nem doido, aos gritos, marcado com M no lombo e que até hoje carrega esta tatuagem irreversível.
Aí é demais. Nem tanto. Deixe o menino correr solto. Faz bem para a ossatura dele. Músculo teso. Menino de hoje só quer saber de televisão. Xuxa e Angélica. Desenho animado e videogame. Puxa vida. Menino gordo. Fofo. Balofo. Preguiçoso. Mole. Não agüenta uma porrada e sai de esguelha que nem cachorro vira-lata.
Caminho da escola. Cada qual no seu animal, naquele tempo era assim, todo mundo ia pra escola a cavalo, a pé ou carro de boi. Pipi como sempre encapetado, levou uma dúzia de ovos no alforje para a escola. No recreio enfio os ovos no cu da égua, um a um. Chamou a Tia Maroca – tia Maroca já viu égua botar ovo? Está bestando menino. Deixe de brincadeira. Pois então venha ver. Colocou a sela na bicha e falou pode olhar! Ao apartar a barrigueira a égua foi botando os ovos pra fora. Ela apavorada – saiu gritando – Biluca, Biluca, fenômeno, fenômeno…
Essa aí sim, brincadeira criativa. Pode ser ensinada na escola. Duvido que a menina não vá gostar. Acredito que se professores ensinarem brincando o resultado será outro.
Socorro era magricela, bem disposta e não havia sacagem que ela não topasse. Minha avó Joaquininha fazia a cada 15 dias latas e latas de biscoitos e bolos. Guardava na dispensa a sete chaves. Era só pra as visitas ou de quando em vez um sequilho para os netinhos esfomeados. A estratégia foi montada. Socorro subiria no teto, tiraria telhas, amarraria uma corda no caibro e desceria na dispensa. Depois a gente puxava o produto do crime. Ela caprichava. E agente saia deixava tudo bem certinho. E plano deu certo. Avó entrava, olhava e saia falando – como é que estas quitandas tão acabando tão ligeiro? E nós quietinhos. Até que num determinado dia ela foi pega com a boca na botija. A velha entrou na dispensa na hora H. Lá de fora só ouvimos os gritos. A avó Joaquina com chicote couro de anta e desceu o pau na pobre da Socorro, que fez xixi na roupa e nós, do outro lado, vazamos mundo afora. Ficamos mais de mês sem voltar a casa dela.
Era a gente que fazia brinquedo. E o dia era curto. Nem falo do estilingue, capanga cheia de pedrinhas, saia por aí, matando bicho, preá, pombas, juritis, calango e tudo que mexia levava pedrada na cabeça. Periquito a gente fazia era fieira. Além de matar na pelota também pegava vivo com cola de jaca no tala da manga.
Agora, futebol eu nunca fui chegado, mas, já grandinho tinha o sonho de ser titular do Guarani. Mas, não tinha coordenação e nem jeito. Um bola murcha autêntico. Certo dia, por falta de tudo, machucado de jogador, só sobrou eu. Vesti a camisa amarela com o número 3. Zagueiro. Lá vem o Zé de Ambrosina como um vento, sujeito era uma bala, e partir pra cima dele tirando enxofre da venta. Pensei “louvado seja Deus”. O que é que faço. Corri ao lado do Ambrosina, alcancei a bola. Dei um chutão bem forte, foi direto no canto- gol contra. Meu minuto de glória acabou pra sempre.


