Artigo

Até que a corda aperte

quarta-feira, 15 de julho de 2009

eu-em-preto-e-branco3Carolina Sá

Teimamos em buscar a liberdade. Liberdade de imprensa, liberdade de vida, liberdade no amor, liberdade no trabalho, na criação, processo genuinamente livre. Mas esquecemos de dar a liberdade necessária para que os outros também sejam livres. Em tempos de desequilíbrios, em que a máxima do Manifesto Comunista se faz presente: ‘Tudo que é sólido desmancha no ar’, resta pouco para explicar. Mas enfim, vou tentar. Nos parâmetros conhecidos, liberdade vem de ‘a potência de ser ou fazer algo’, ninguém é ou nasce livre, até a adolescência a ilusão da onipotência impede de enxergar o quanto somos dependentes dos outros, do sistema e da família.

Na idade adulta ocorre outro fenômeno curioso, pretendemos a liberdade total, e em troca recebemos frustração. Não é que eu seja descrente da possibilidade de ser livre, é que quando a ‘corda aperta’, tudo muda. Vou me explicar melhor. Em tempos de escassas oportunidades de trabalho, a atual geração entrou numa briga ferrenha por qualificação. Isso inclui aulas de cursinho, inglês, faculdades particulares à noite e empregos durante todo o dia. Como se não bastasse, após a maratona de cinco anos nos bancos escolares, é necessário entrar ‘pra valer’ no mercado. Aí começam os problemas.  O chefe cobra muito, os colegas tentam levar no jeitinho brasileiro, e se não formos bem espertos viramos o bode expiatório.

É comum hoje em dia as pessoas se sentirem coagidas no ambiente de trabalho. Assédio sexual deu lugar ao assédio moral. E nas empresas a ordem é fazer com que o funcionário seja doutrinado a seguir as normas da cartilha do contrato (geralmente feito em letras tamanho 8, quase ilegíveis para qualquer mortal). Pois bem, é normal, eu diria até corriqueiro as empresas enfrentarem processos judiciais por abuso de poder, assédio, danos morais e principalmente exploração do trabalho.
Mas há causas para isso, eu diria até históricas. Até o século XX havia escravidão no Brasil. Hoje continua havendo, e não estou falando de trabalho escravo em canaviais ou lugares inóspitos. Me refiro à exploração intelectual, de tempo e até por que não dizer psicológica no ambiente de trabalho.

As situações são típicas: funcionário padrão sofre perseguição dos colegas, chefe recebe e-mail de funcionário denunciando fraude na empresa, jovem moça bonita sofre assédio sexual, jovem promissor sofre humilhações de seu superior, empresário trabalha duas vezes mais e ganha duas vezes menos, mulher ganha menos que o homem, e por aí vai. São inúmeras as formas de exploração. Enfim, o que nos resta num mercado contaminado pela virulência do oficialismo, da burocracia, e por que não dizer, da ignorância,o mais adequado seria, segundo meu entendimento aprender a jogar. Dar corda até que o outro se enforque, ou mesmo ser o algoz, enforcar o outro antes de ir pra forca. Este é o Brasil, onde ser esperto significa malandragem e ‘jogo de cintura’, à prova de fogo. Na nossa bela bandeira, símbolo máximo da democracia e do positivismo deveria constar: ‘Ordem, progresso e muita malandragem’.

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